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sábado, 27 de agosto de 2016

“Céu e Inferno”, de Akira Kurosawa: filme de fundo cristão e dos maiores já feitos


C. N.

Se nos ativermos às críticas e resenhas feitas sobre Céu e Inferno (天国と地獄, Tengoku to jigoku, 1963), do mestre Akira Kurosawa, teremos a convicção de estar diante de um filme americanizado, no estilo policial ou noir (e, com efeito, sempre se acusou a Kurosawa de ser americanizado). Mais que isso, porém: segundo o mais puro marxismo, teria o filme por objeto mostrar as desgraças causadas pela divisão da sociedade em ricos e em pobres. Naturalmente, também isso mostra o filme, mas no preciso sentido de que, como diria Santo Tomás de Aquino, na miséria não pode haver vida espiritual. Sucede, todavia, que este é como um mero motivo para o eixo da história: a luta entre a virtude (que o personagem principal, vivido por Toshirō Mifune, desenvolve ao longo do filme) e o mal, e, enfim, entre o céu e o inferno (o que se mostrará perfeitamente na impressionante cena final). – Kurosawa não era católico, e sempre oscilou entre o budismo e uma sorte de desespero teológico (como em Ran). Mas nesta adaptação de um romance policial do norte-americano Ed McBain, construída de fato, na superfície, como um drama policial, Kurosawa produziu – pela razão que seja – uma obra de fundo cristão. Veja-se a película e constatar-se-á. Quem já viu Kagemusha (de 1980) terá observado o desprezo com que os missionários católicos eram tratados de início pelos senhores da guerra, e as consequências trágicas da ação destes, movida quase sempre por ambição e por inveja. Em Tengoku to jigoku, porém, não se trata de alusão marginal à religião, mas de pôr a luta entre a virtude e o mal e entre o céu e o inferno no centro do próprio filme, da maneira assinalada. E raramente o cinema atingiu de modo tão perfeito o fim da arte: fazer tender ao bem e ao verdadeiro mediante o belo e fazer afastar-se do mal e do falso mediante o horroroso.        

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