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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Um belo filme russo da era de Nikita Khrushchov: “A Balada do Soldado”



Carlos Nougué

 “Porque, entre el amor y Marte,
muera Marte, y amor viva.”
Calderón de la Barca

As artes russas, incluído o cinema, desde a revolução bolchevique estiveram submetidas aos ditames da política partidária. Surgiu daí o chamado “realismo socialista”, que antes deveria chamar-se “realismo de propaganda socialista”: um modo “artístico” padronizado segundo os interesses da revolução. Dizia-se contrário à arte moderna burguesa e decadente: mas o fato é, que se a arte" moderna ocidental era e é efetivamente decadente – a própria diluição das formas, como diria Giovanni Reale –, o realismo socialista tampouco era propriamente arte. Era antes, insista-se, meio de propaganda ideológica. Mas supreendentemente o cinema russo tanto sob Lênin como sob Stalin também teve suas veleidades de “arte de vanguarda”, e Dziga Vertov e Serguei Eisenstein foram dois de seus expoentes. O cinema do primeiro é simplesmente insofrível, pura diluição das formas. O do segundo pretendia-se duplamente revolucionário: comunista e vanguardista. Não posso senão concordar com Andrei Tarkovski quanto ao cinema de Eisenstein: é forçado, anticinematográfico, nervoso como a própria revolução, sobretudo Greve, Outubro e o Encouraçado Pontemkin, os quais, apesar de constarem das listas ocidentais de melhores filmes de todos os tempos, não passam de artificiosas peças cerebrinas, justo porque neles o diretor pretendeu infundir princípios de psicologia a mais rasteira (era a época de Pavlov...). Mesmo seus melhores filmes, Alexandre Nevsky e Ivã, o Terrível, padecem ainda tal equívoco (como esquecer a primária cena de Alexandre Nevsky em que um russo é alçado pelos cavaleiros teutônicos para morrer e é sobreposto à escultura de um anjo?...).*
Mas a vida e a história sempre trazem surpresas. As reformas empreendidas na era de Nikita Khrushchov (como primeiro-secretário do Partido e depois como primeiro-ministro), se não operaram nenhuma alteração de fundo no regime socialista, ao menos nos deixaram duas belas películas: Quando Voam as Cegonhas (Letyat Zhuravli, 1957, de Mikhail Kalatozov) e A Balada do Soldado (Ballada o Soldate, 1959, de Grigori Chukhraj). São semelhantes no tema: os tristes efeitos da guerra especialmente sobre os que se amam. Não deixam, é verdade, de ter marcas da estética do realismo socialista, e em ambos, como era de esperar, Deus está de todo ausente. Mas tampouco deixam de ter méritos artísticos, além de que seu fim não é mau em si (apesar do uso que pudesse fazer deles o regime de Khrushchov). É porém de A Balada do Soldado que falarei mais detidamente aqui.
Antes de tudo, a balada do título remete à composição poética de mesmo nome, tanto a de caráter heroico como a de caráter elegíaco e a de caráter amoroso. Porque, com efeito – e quase sem insistir na heroicidade do soldado vermelho –, a película é um digno elogio do valor do soldado em geral e uma elegia pela dor dos amantes e dos familiares separados pela guerra. No filme, Alyosha, um mui jovem soldado recrutado para o front na Segunda Guerra Mundial, logra destruir sozinho, com certa sorte, tanques alemães. Recebe uma condecoração pelo feito, mas consegue também uma semana de licença para visitar a mãe. No entanto, o caminho para casa é longo, e nele Alyosha vai deparando com as dores e as mazelas causadas pela guerra. Mais que isso, no entanto, viajando clandestino num trem, conhece outra clandestina, a jovem Shura – e os dois se enamoram. O amor entre os dois cresce durante uma viagem acidentada e... O restante não o conto, para que possais desfrutar mais intensamente da película.
Insista-se apenas: apesar da total ausência de transcendência, A Balada do Soldado não deixa de ser tocante, sem ser piegas nem pacifista ao modo norte-americano. E isso já é grande coisa.
  


* Mas o oratório de Alexandre Nevsky e o de Ivã, o Terrível, ambos compostos por Serguei Prokofiev, são estupendos – e permanecem.

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