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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Uma belíssima peça de Anton Bruckner (1824-1896) para piano

                                                                                            Carlos Nougué

 O católico Anton Bruckner é o compositor de meu coração, como digo e redigo em vários livros. Mas aqui me surpreendi. Não conhecia esta peça (composta ao mesmo tempo que sua Sinfonia n. 1), nem Brucker nunca se pretendeu um compositor-pianista. Eis todavia uma pequena obra-prima, em interpretação primorosa de Asiya Korepanova. Como o diz esta, “Erinnerung [Recordação] é uma verdadeira joia que [já] mostra a maneira de Bruckner de escrever os movimentos lentos de suas sinfonias, nos quais a melodia simples inicial se desenvolve gradualmente, apoiada por linhas secundárias sempre crescentes”. E destaco eu, primeiro, o modo como se resolvem cantavelmente, com um retorno à melodia incial, as ásperas dissonâncias do meio da peça; e, segundo, o final da mesma peça, no qual, como em tantos finais de movimentos sinfônicos de Bruckner, a música parece desprender-se da matéria.



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

6 Fugas para Violino Solo, de Bartolomeo Campagnoli

Estas “6 Fugas para Violino Solo”, de Bartolomeo Campagnoli, são mais uma magnífica demonstração da vitalidade no tardio século XVIII-XIX da Fuga, a forma musical barroca máxima.

00:01 Introduzione

01:24 Fuga I (Tempo giusto)

06:51 Prelude (Adagio)

07:46 Fuga II (Moderato)

12:54 Adagio

14:00 Fuga III (Maestoso)

18:36 Introduzione (Adagio)

19:57 Fuga IV (All.º non troppo)

24:59 Larghetto

25:58 Fuga V (Allegretto)

32:40 Andante sostenuto

33:25 Fuga VI (Tempo allo Breve) 


segunda-feira, 26 de julho de 2021

O “Stabat Mater” de Palestrina

 

Carlos Nougué

 A música polifônica religiosa de Giovanni Pierluigi da Palestrina (falecido em 1594) foi aceita pelo Concílio de Trento para a liturgia, porque, ao contrário da polifonia flamenga, cumpria um dos principais requisitos para que a música tenha lugar em nossas igrejas: a clareza com que se canta o texto, de modo que seja perfeitamente audível e entendível para todos. Pois bem, o Stabat Mater de Palestrina é uma de suas peças mais sublimes, como o constatareis por vós mesmos.

Mas Palestrina não deixava de ser um homem de seu tempo, o Renascimento, e compôs alguns madrigais (forma musical típica da época) com textos que ecoavam em algum grau, ainda, a pegajosa e enjoativa poesia dos trovadores cátaros ou influídos por estes. Esta poesia, nascida nos subterrâneos da heresia mais poderosa do século XII, nunca mais deixou de estar presente de algum modo nas artes (ou seja, na literatura, no teatro, no cinema, na música, de algum modo na pintura), até hoje; e atingiu sua perfeição daninha nas óperas de Wagner, no século XIX – é o gnóstico amor à morte fantasiado de paixões e idílios adúlteros e/ou impossíveis. E, afinal, ainda que já sem o fundo mais estritamente gnóstico, não é o que ouvimos até hoje na música popular, no jazz, no samba, na bossa-nova, no tango, no bolero, na canção francesa, etc.? O “chororô” meloso e a “dor de cotovelo” ainda avassalam a alma do povo: é mais emocionante e romântico um amor impossível ou perdido que um amor efetivo de que resultem matrimônio indissolúvel e filhos. – Mas, voltando à música erudita, se é verdade que Palestrina compôs poucos madrigais ao velho estilo dos cátaros Fedeli d’Amore, e compôs muitos madrigais espirituais que se inscrevem no melhor da música religiosa não litúrgica, o fato é que dos maiores compositores do século XIV aos dias de hoje só seis – salvo engano meu  escaparam totalmente à velha influência cátara: o católico John Browne (1453-1500), que só compôs música religiosa polifônica (e que só recentemente descobri); Francisco Luis de Victoria (1548-1611), sacerdote espanhol que só compôs música litúrgica polifônica; o católico Arcangelo Corelli (1653-1713); o luterano Johann Sebastian Bach (1685-1750); o católico Anton Bruckner (1824-1896); e o ortodoxo Arvo Pärt (1935-  ). Alguns escaparam quase totalmente: Palestrina, como dito; o católico Heinrich Ignaz von Biber (1644-1704); o luterano Dieterich Buxtehude (1637-1707); o católico Michel-Richard Delalande (1657-1726); o católico François Couperin (1668-1733); o católico Jan Dismas Zelenka (1679-1745); o católico César Franck (1822-1890); o católico Charles-Marie Widor (1844-1937); Franz Schmidt (1874-1939); e poucos mais.       

Mas escutemos o Stabat Mater de Palestrina.


sábado, 17 de julho de 2021

O texto integral do “Stabat Mater”

 O texto latino vem acompanhado de duas traduções ao português: uma mais literal, e outra (em itálico), de Ricardo Dias Neto, que busca reproduzir também o esquema métrico e rítmico dos versos – tetrâmetros trocaicos – originais. – Como se verá, ademais, alguns versos latinos têm variantes.

1 Stabat Mater dolorosa iuxta crucem lacrimosa dum pendebat Filius

– Em pé, a Mãe dolorosa, chorando junto à cruz da qual pendia seu Filho

De pé, a Mãe dolorosa junto da cruz, lacrimosa, via o Filho que pendia

2 Cuius animam gementem contristatam et dolentem pertransivit gladius

– Cuja alma gemente, entristecida e dolorida por causa da espada que atravessou

Na sua alma agoniada enterrou-se a dura espada de uma antiga profecia

3 O quam tristis et afflicta fuit illa benedicta Mater Unigeniti

– Oh, quão triste e quão aflita estava ela, a mãe bendita do Unigênito

Oh! Quão triste e quão aflita entre todas, Mãe bendita, que só tinha aquele

Filho

4 Quae moerebat et dolebat et tremebat cum videbat nati poenas inclyti

Quae moerebat et dolebat Pia Mater dum videbat nati poenas inclyti

– Como suspirava e gemia [e tremia] a Mae Piedosa, ao ver os sofrimentos de seu divino Filho

Quanta angústia não sentia a Mãe piedosa quando via as penas do Filho seu

5 Quis est homo qui non fleret Matri Christi si videret in tanto supplicio?

– Que homem não choraria se visse a Mãe de Cristo em tamanho suplício?

Quem não chora vendo isso, contemplando a Mãe de Cristo num suplício tão enorme?

6 Quis non posset contristari Matrem Christi contemplari dolentum cum filio?

– Quem não se entristeceria ao contemplar a Mãe de Cristo, condoída com seu filho?

Quem haverá que resista se a Mãe assim se contrista padecendo com seu Filho?

7 Pro peccatis suae gentis vidit Iesum in tormentis et flagellis subditum

– Pelos pecados de seu povo, viu Jesus em tormentos e submetido aos flagelos

Por culpa de sua gente vira Jesus inocente ao flagelo submetido

8 Vidit suum dulcem natum moriendo desolatum dum emisit spiritum

– Viu seu doce nascido [Filho] morrer abandonado quando entregou seu espírito

Vê agora o seu amado pelo Pai abandonado, entregando seu espírito

9 Eia Mater, fons amoris, me sentire vim doloris fac ut tecum lugeam

– Eia, mãe, fonte de amor, faz-me sentir tanto as dores que eu possa chorar contigo

Faze, ó Mãe, fonte de amor, que eu sinta o espinho da dor para contigo chorar

10 Fac ut ardeat cor meum in amando Christum Deum ut sibi complaceam

– Faz que arda meu coração de amor por Cristo Deus, para se compadecer

Faze arder meu coração do Cristo Deus na paixão para que Lhe possa agradar

11 Sancta Mater, istud agas crucifixi fige plagas cordi meo valide

– Santa Mãe, faz isto: que as chagas do crucificado sejam fortemente impressas em meu coração

O Santa Mãe, dá-me isto, trazer as chagas de Cristo gravadas no coração

12 Tui nati vulnerati tam dignati pro me pati poenas mecum divide

– As feridas de teu Filho, que por mim padeceu as penas, divide comigo

Do teu Filho que por mim entrega-se à morte assim, divide as penas comigo

13 Fac me vere tecum flere crucifixo condolere donec ego vixero

Fac me tecum pie flere crucifixo condolere donec ego vixero

– Faz-me contigo [piedosamente] verdadeiramente chorar, sofrer com o crucificado enquanto eu viver

Oh! Dá-me enquanto viver com Cristo compadecer chorando sempre contigo

14 Iuxta crucem tecum stare te libenter sociare in planctu desidero

Iuxta crucem tecum stare et me tibi sociare in planctu desidero

– Quero estar contigo junto à cruz e, de boa vontade, quero associar-me a teu pranto

Junto à cruz eu quero estar, quero o meu pranto juntar às lágrimas que derramas

15 Virgo virginum praeclara mihi iam non sis amara fac me tecum plangere

– Virgem das virgens preclara, não sejas amarga comigo, faz-me contigo chorar

Virgem, que as virgens aclara, não sejas comigo avara, dá-me contigo chorar

16 Fac ut portem Christi mortem passionis eius sortem et plagas recolere

Fac ut portem Christi mortem passionis fac consortem et plagas recolere

– Faz que eu traga a morte de Cristo, que eu participe de sua paixão e que venere suas chagas

Traga em mim do Cristo a morte, da Paixão seja consorte, suas chagas celebrando

17 Fac me plagis vulnerari cruce hac inebriari ob amorem filii

Fac me plagis vulnerari fac me cruce inebriari et cruore filii

– Faz-me ferido pelas chagas, pela cruz embriagado de amor pelo teu Filho

Por elas seja eu rasgado, pela cruz inebriado, pelo sangue de teu Filho

18 Inflammatus et accensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii

Flammis ne urar succensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii

Flammis orci ne succendar, per te, Virgo, fac, defendar in die iudicii

– Inflamado e abrasado, que eu seja defendido por ti, ó Virgem, no dia do Juízo

No Julgamento consegue que às chamas não seja entregue quem por ti é defendido

19 Fac me cruce custodiri morte Christi praemuniri confoveri gratia

Christe cum sit hinc (iam) exire da per matrem me venire ad palmam vicoriae

– Faz-me ser guardado pela cruz, fortalecido pela morte de Cristo e confortado pela graca

Quando do mundo eu partir, dai-me, ó Cristo, conseguir por vossa Mãe a vitória

20 Quando corpus morietur fac ut animae donetur paradisi gloria.

Amen.

– Quando meu corpo morrer, faz que minha alma alcance a glória do paraíso.

Amém.

Quando meu corpo morrer, possa a alma merecer do Reino Celeste a glória.

Amém.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

O "Stabat Mater"

                                                                                                                     Carlos Nougué

Stabat Mater (“Permanecia a Mãe [de Cristo]”) é como se chamam dois hinos católicos: um deles também conhecido como Stabat Mater Dolorosa (“Permanecia a Mãe dolorosa”), e o outro também conhecido como Stabat Mater Speciosa (“Permanecia formosa a Mãe”). Mas Stabat Mater puro e simples é mais usado para o Stabat Mater Dolorosa, hino do século XIII atribuído já ao franciscano Jacopone da Todi, já ao Papa Inocêncio III.

O Stabat Mater Dolorosa é dos hinos cristãos mais pungentes: fala das dores de Maria Santíssima durante a crucificação de seu Filho.

Como sequência litúrgica, o Dolorosa foi supresso, juntamente com muitas outras, pelo Concílio de Trento, mas retornou ao missal por determinação do Papa Bento XIII em 1727, para a festa de Nossa Senhora das Dores.   

Desde o século XVI, o texto do nosso Stabat Mater serviu para composições musicais (algumas litúrgicas, mas a larga maioria não litúrgica) de vários e grandes artistas, entre os quais Palestrina, Vivaldi, Pergolesi, Haydn, Schubert, Rossini, Verdi, Liszt, Dvořák e Arvo Pärt. Vamos publicá-las aqui (estas e outras) ao longo dos dias. Começamos hoje, porém, com a insuperável sequência litúrgica Stabat Mater em gregoriano, de compositor anônimo.