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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

“Prélude, Choral et Fugue”, de César Franck


C. N.

O organista de igreja e compositor belga César Franck (Liège, 10 de dezembro de 1822-Paris, 8 de novembro de 1890) é dono de um repertório razoavelmente vasto, mas desigual. Infelizmente é mais conhecido pelo meloso Panis Angelicus, de sua por outro lado bela Messe à trois voix, op. 12. Seus pontos altos, porém, são altíssimos, em especial as peças para órgão (aqui; aqui; aqui), às quais aplicou com grande felicidade sua reinvenção da forma cíclica (uma extensão da forma sonata de dois temas); a Sonate pour violon [violino] et piano en la majeur; e, ainda mais especialmente, o Prélude, Choral et Fugue, um dos ápices da música para piano solo. (Muitos consideram o poema sinfônico Les Béatitudes sua obra máxima; confesso, todavia, que ao menos até agora não posso senão discrepar dessa consideração.)
Recomendo vivamente o Prélude, Choral et Fugue na interpretação magnífica de Jorge Bolet. Nesta homenagem a Bach (com ecos distantes de Beethoven), a forma cíclica atinge o apogeu, especialmente pela recapitulação na Fuga dos temas do Prelúdio e do Coral, mas também pelas complexas relações temáticas de que se tece toda a peça. Há porém muito mais de notar, como o impressionante modo cromático, de todo próprio, de que Franck permeia tanto o Coral como a Fuga.  
A peça como um todo é perfeitamente barroca, não fosse Franck um devoto de Bach. Em todo o seu rico e tocante tecido, é como uma constante alternância entre a angústia e a esperança, entre a escuridão e a luz, alternância que acaba por resolver-se pela luz num extático final.
Boa audição.