Antônio
José Madureira foi integrante do Quinteto Armorial, que associou a música
erudita à popular, na década de 1970. Vinculava-se ao Movimento Armorial
(idealizado e liderado pelo literato paraibano Ariano Suassuna). Neste álbum, Madureira e
a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte homenageiam os 400 anos da cidade
de Natal.
Faixas:
0:00 - 01. Loa do Potiguara (Antônio José Madureira) 1:13 – 02. Canto do Mangue (Antônio José Madureira) 5:09 – 03. Loa do Congolês (Antônio José Madureira) 6:06 – 04. Procissão dos Navegantes (Antônio José Madureira) 9:52 – 05. Loa do Mareante (Antônio José Madureira) 10:50 – 06. Fortaleza dos Reis Magos (Antônio José Madureira).
Para mim, John Williams é o maior dos guitarristas– apesar de
que ultimamente, com o sucesso e ao trocar de violão, passou a investir antes no volume que no
timbre, o que me parece uma perda. Mas continuo a considerá-lo o maior dos
guitarristas, aquele que aliás fundou uma como escola: a do som perfeitamente limpo, sem arranhaduras ou rascaduras.
A Nona Sinfonia de Schubert, “a Grande”, é para mim a melhor das
sinfonias depois das de Bruckner de 4 a 9 e da Segunda de Mahler,
e imediatamente antes da Segunda de Brahms, da Júpiter de Mozart, da Nona de Dvořák, etc. É uma como ode à beleza, de delicados e suaves “meios-tons”. Já segue o esquema beethoveniano de substituição do Minueto por
um Scherzo, mas ainda mantém este como terceiro movimento. – Ademais, este vídeo
é maravilhoso: temos nele a regência elegante, clara, expressiva, simpática de
Orozco-Estrada – é como se a música saísse de suas mãos –, talvez o maior
maestro dos surgidos nos últimos tempos; a orquestra extraordinária; a beleza e
o brilho dos mesmos instrumentos; a elegância sóbria dos trajes; etc. Saudade
grande de quando ainda podia viajar e assistia a concertos ao vivo, na cidade
do Rio de Janeiro ou na de São Paulo.
Assim como, por exemplo, o só capítulo XI do
livro IV da Suma contra os Gentios, de S. Tomás, vale mais que toda a
literatura junta, por melhor que esta seja, assim também, ainda por exemplo,
este só pequeno duo (2 minutos e meio) da longa peça religiosa de Händel
(1685-1759) Brockes Passion HWV 48 vale mais que toda a música popular
junta, por melhor que esta seja. E, se lhes posso dar um conselho, é que se
eduquem musicalmente para poder educar musicalmente seus filhos. Como dizia
Aristóteles no livro VIII de sua Política, a educação musical e a boa
música, que é um análogo da virtude, ajudam a soldar a pólis, a sociedade. Mas,
como devemos dizer nós, católicos, a boa música – além do que diz Aristóteles –
ajuda a purificar a alma, razão por que não deixa de ser um auxiliar dos
influxos da graça, e certamente é um regalo de Deus para que mais facilmente
suportemos as dores deste vale de lágrimas. – Ademais, veja-se que dupla de
cantores, e quanto sua arte é incalculavelmente superior à de qualquer cantor
popular, por melhor que seja; e com que elegância o maestro rege seus músicos,
como se a música saísse de suas próprias mãos, de modo análogo a como Deus rege
o universo, no qual efetivamente nada
se move sem ser movido antes de tudo pelas "mãos" do Primeiro Motor
Imóvel.
O paraguaio Augustín Barrios Mangoré, um dos
maiores compositores para guitarra (violão) de todos os tempos – para mim, é o
maior depois de Sor –, muito pouco antes de morrer ouviu à sua porta três
batidas que se repetiam. Ao abri-la, deparou com um velha senhora que lhe pedia
“uma esmola, pelo amor de Deus”. Deu-lha, e imediatamente compôs esta
obra-prima (executada aqui pela genial coreana Kyuhee Park, então [2015] com 29
anos). Mas Barrios, que desde sua outra obra-prima chamada A Catedral
vinha dando sinais de conversão, compôs Uma Esmola pelo Amor de Deus
como se estivesse, como devido, mendigando a Deus sua salvação eterna. E, com
efeito, é impossível escutar esta peça sem emocionar-se religiosamente,
sobretudo se é executada com a profundidade com que a executa Kyuhee Park. Boa
audição, senhores, destes tocantes três minutos de grande arte.
Já fiz pública muitas vezes, e
especialmente em livros, minha admiração pelo compositor austríaco católico Anton Bruckner (1824-1896). Seus motetos, suas
missas e, especialmente, suas sinfonias compõem uma das obras musicais mais conseguidas
de todos os tempos. E não nos deixemos enganar por uma falsa perspectiva:
essencialmente, a música de Bruckner é de louvor a Deus, e, à parte determinados
recursos wagnerianos de orquestração e outros acidentes compartilhados com a
música de então, só cronologicamente tem que ver com o romantismo, como o
explico detidamente em “Da Arte do Belo” e em outros livros. Anton Bruckner é
em verdade único, não só pelo que se acaba de dizer, mas por sua tão rica e tão
própria linguagem harmônica, por sua ousada e também tão própria maneira de modular, e pelo caráter acentuadamente
polifônico, sobretudo, de suas majestosas e extensíssimas sinfonias.
“Aequale” (do latim “[ad] voces aequales”) é certa forma musical. Como seu
próprio nome indica, foi originalmente composto para quaisquer vozes ou
instrumentos iguais. Mas no século XVIII “aequale” se restringiu a ser termo
genérico para peças curtas para conjunto de trombones. Ademais, antigos
regulamentos de música sacra de Linz, Áustria, dizem-nos que os “aequales” eram
usados em serviços funerários. Mais especialmente, eram executados em torres na
noite anterior ao Dia de Finados e neste mesmo dia. É que o trombone, como o
vemos no estupendo oratório “O Livro dos Sete Selos”, do austro-húngaro Franz
Schmidt, se tornara um como símbolo musical do julgamento divino. E, com
efeito, Bruckner compôs estes dois “Aequales” no final de janeiro de 1847 (durante
uma de suas muitas estadas na Abadia de São Floriano, onde se criara e educara)
para o funeral de sua tia Rosalia Mayrhofer.
O manuscrito do “Aequale n. 1” (WAB 114) encontra-se no arquivo da Abadia de Seitenstetten, enquanto o esboço do “Aequale n. 2” foi recuperado posteriormente no arquivo da Abadia de São Floriano. No esboço, falta a partitura para o trombone baixo; na edição crítica do Bruckner Gesamtausgabe, todavia, a partitura que faltava foi reconstruída por Hans Bauernfeind.
O “Aequale n. 1” e o “Aequale n. 2”, ambos em dó menor, têm respectivamente 34 e 27 compassos, e foram escritos para trombones alto, tenor e baixo. As duas obras são em formato e extensão de coral, contando a primeira com uma melodia tipicamente austríaca em sextas. Diga-se, por fim, que conjuntos instrumentais semelhantes seriam usados pelo mesmo Bruckner no chamado Choräle de sinfonias suas.