Cada um a seu modo, três
maestros entenderam mais perfeitamente a música de Bruckner e sua ordem à
eternidade: Eugen Jochum, Günter Wand, e o romeno Sergiu Celibidache. Pois bem,
os dois vídeos com este último cujo enlace se dá abaixo falam por si. Não
deixem de guardá-los: são documentos inestimáveis para os amantes da música devidamente ordenada e avessos ao dionisíaco musical. Particularmente de
recomendar é o vídeo sobre a Nona
Sinfonia de Bruckner: além da magistral aula de regência, de música, de
arte, mostra ali Celibidache, para os que têm ouvidos de escutar, por que Bruckner
é inigualável; atente-se especialmente a tudo o que diz em sua visita a St. Florian.
Mas a ambos os vídeos é impossível assistir sem admiração ou sem emoção.
Observação. Particularmente com Bruckner o maestro romeno
exercita sua tendência a executar a música mais lentamente que os demais. À Oitava Sinfonia de Bruckner, por
exemplo, enquanto os demais lhe dão duração entre 1,15 e 1,25 h, Celibidache
lhe dá a de 1,42 h. Voltaremos a tratá-lo na série sobre A Sinfonia.
Em tempo. Fiquem, ademais, desde
já, com enlace para todas as sinfonias de Bruckner que Celibidache regeu, além
do Te Deum. Não deixem de guardar
todos estes importantes documentos:
Indubitavelmente belo e
dotado de sublimidade religiosa, ainda que não litúrgica. Mas não é todo de
Mozart. Este começou a compô-lo por encomenda do conde Walsegg-Stuppach (que
pedira ao compositor anonimato, porque queria executá-lo em memória de sua esposa como se fosse composição sua); e começou a fazê-lo vigorosamente. No entanto, sua saúde
começou por sua vez a deteriorar, e ele passou a pensar fixamente que o
compunha para sua própria morte – que de fato o alcançou quando a peça ainda estava
longe de concluir-se. Sua viúva, então, por precisar receber a metade ainda não
paga pelo conde, pediu ao assistente de Mozart, Franz Süssmayr, que o
concluísse. O Introitus é a única
parte que Mozart escreveu completamente. De destacar, a Sequentia, dividida em “Dies irae” (impressionante), em “Tuba mirum”
e seu trombone, em “Rex tremendae”, em “Recordare”, em “Confutatis”, e na tocante “Lacrimosa”; o majestoso Sanctus, com breve fuga no “Hosanna”; e o Benedictus, que conclui com estupenda fuga para coro pleno. Mas para o Sanctus, para o Benedictus e para o Agnus DeiSüssmayr já não contou sequer com esboços de Mozart.
Observação. Para mim, a versão de
Karajan sobre-eleva à de todos os demais.
Wolfgang Amadeus Mozart Requiem
in d minor, k 626 Herbert
von Karajan Wiener
Philharmoniker Wiener
Singverein 1986 Anna
Tomowa Sintow Helga Muller Molinari Vinson Cole Paata Burchuladze
2:05I. Introitus 7:34II. Kyrie III.
Sequentia 10:161. Dies irae 12:092. Tuba mirum 16:013. Rex tremendae 18:224. Recordare 23:325. Confutatis 25:546. Lacrimosa IV.
Offertorium 29:291. Domine Jesu 33:222. Hostias 38:00V. Sanctus 39:50VI. Benedictus 45:30VII. Agnus Dei 49:13VIII. Communio
Uma sucessão de pérolas pelo guitarrista mais límpido e cristalino. Quanto a isto, John Williams está para a guitarra assim como Glenn Gould está para o piano.
Outro vídeo histórico; de guardar. Parece-nos sem dúvida a melhor versão destes magníficos concertos. Note-se: com instrumentos modernos (afora um que outro, como o cravo). Perfeição em dinâmica, em equilíbrio, em cristalinidade, em vigor, ou seja, quanto requer a música de Bach.
Johann Sebastian Bach (1685 - 1750) Conciertos de Brandenburgo 1 - 6, BWV 1046 - 1051 Münchener Bach-Orchester, Karl Richter, director.
Concierto de Brandenburgo Nº 1 en Fa mayor BWV 1046 [00:28~] 1º. Allegro [04:23~] 2º. Andante (en re menor) [08:12~] 3º. Allegro [12:53~] 4º. Menuetto; Trío I (2 oboes y fagot); Menuetto Polacca (violines y violas); Menuetto Trío II (2 cornos y 3 oboes); Menuetto.
Concierto de Brandenburgo Nº 2 en Fa mayor BWV 1047 [20:50~] 1º. Allegro [26:00~] 2º. Andante (en re menor) [29:44~] 3º. Allegro assai
Concierto de Brandenburgo Nº 3 en Sol mayor BWV 1048 [32:35~] 1º. Allegro [38:38~] 2º. Adagio [39:41~] 3º. Allegro
Concierto de Brandenburgo Nº 4 en Sol mayor BWV 1049 [45:06~] 1º. Allegro [52:44~] 2º. Andante (en mi menor) [56:44~] 3º. Presto
Concierto de Brandenburgo Nº 5 en Re mayor BWV 1050 [1:01:48~] 1º. Allegro [1:11:44~] 2º. Affettuoso (en si menor) [1:16:38~] 3º. Allegro
Concierto de Brandenburgo Nº 6 en Si♭ mayor BWV 1051 [1:22:00~] 1º. Moderato [1:28:22~] 2º. Adagio ma non tanto (en Mi♭ mayor) [1:33:07~] 3º. Allegro
Esta sinfonia, que é não só uma das maiores sinfonias mas uma das maiores peças musicais – e entre estas estão pelo menos quatro outras sinfonias de Bruckner –, é, ademais, como uma longa procissão, ou como uma longa oração, composta e (corretamente) executada como de joelhos e com a alma tomada de verdadeira e contida emoção ante o divino. A solenidade de fundo religioso é sua marca. É uma catedral sonora, um análogo das grandes catedrais góticas ou barrocas.
Desta fonte beberam – muito bem, e cada um à sua maneira – Hans Rott em sua única sinfonia, o Gustav Mahler da Sinfonia 2 até pelo menos a 5, Franz Schmidt em suas quatro sinfonias, o Erkki Melartin da Sinfonia 3 e da 6, e Richard Wetz em suas três sinfonias; e ainda, de certo modo, o Einojuhani Rautavaara da Sinfonia 3, da 7 e da 8 (as outras são cacofônicas em algum grau), o Egon Wellesz da Sinfonia 1 e da 2 (as outras também são cacofônicas em algum grau), e outros.
E valem para as sinfonias de Bruckner o que escreveu o maestro Mahler na capa da partitura do Te Deum bruckneriano, em lugar de “para solistas, coro, órgão e orquestra”: “Para as vozes dos anjos abençoados pelo Céu, para os corações puros e para as almas purificadas pelo fogo”.
Em tempo. O maestro Eugen Jochum é o regente bruckneriano por excelência. Ao lado de suas versões das sinfonias de Bruckner, as de todos os demais empalidecem em algum grau ou de algum modo. Este vídeo histórico é de guardar.
Aprendi a ver em Lorin Maazel o que de fato ele era: um dos maiores maestros de todos os tempos, e certamente o mais elegante e o mais expressivo deles, além de dono de portentosa memória. Como me disse um amigo, parece que a música sai de suas mãos. É um análogo da regência do mundo por Deus. Quanto à música de Mahler... Esperem-me, por favor, a continuidade da série sobre A Sinfonia.
Como as sinfonias de Bruckner, e ressalvadas todas as diferenças, a Sinfonia 3 e a 4 de Arvo Pärt são profundamente religiosas (a 1 e a 2 são de sua época cacofônica, logo superada). E a 3 merece figurar entre as maiores de todos os tempos. Falarei detalhadamente da 3 e da 4 na série sobre a Sinfonia.
O alemão Richard Wetz (1875-1935) é autor de três belas sinfonias, influídas todas pela música bruckneriana – e vai-se vendo cada vez mais que Bruckner é o verdadeiro pai não da sinfonia moderna, mas da grande sinfonia moderna (Mahler, Melartin, Schmidt, Wetz, Rott...). Falarei também das peças de Wetz na série sobre A Sinfonia. Por ora, fique-se com seu Requiem, de veia sinfônica.
Recomendo vivamente
estes dois CDs: Japanese
Folk Melodies, com Jean-Pierre Rampal na flauta, e Sakura-Japanese
Melodies for Flute and Harp, com Rampal e Laskine. Conheço um pai que
fundou a educação musical de seu filho, desde a mais tenra idade, em Mozart e
nestes dois CDs – e afianço que com resultados magníficos.
Mas para todos são uma
rara oportunidade de conhecer a bela música nipônica. E nunca é demasiado
lembrar que do Japão nos vieram grandíssimas formas artísticas e grandíssimos
artistas: por exemplo, o haicai (ainda que nem sempre por seu fundo), e, no
cinema, o Kurosawa de Céu e Inferno ede Derzu
Uzala e, sobretudo, Yasujirō Ozu,
cuja cinematografia, à parte as limitações próprias da origem, é a mais pura
poesia do familiar e do doméstico. É obra sem similar, e conseguiu fazer até que,
sob sua influência, o entediante e confuso Wim Wenders realizasse seu único
filme com alguma vida (Paris, Texas).
Mas este é assunto para
outro espaço, em que me ocuparei do cinema. Por ora, fiquem com estas pérolas:
Só a ditadura da cacofonia
instaurada no século XX – ditadura para a qual contribuíram a ganância da
indústria da música e o esnobismo fátuo do público – é capaz de explicar como podem
ter caído no esquecimento compositores como Erkki Melartin (Finlândia, 1875-1937). Esse homem de saúde delicada e de gênio, é
autor de grande quantidade de peças musicais, das mais variadas formas. Mas é
especialmente grande sinfonista, o que acabo de descobrir. Por isso mesmo, na
série sobre A Sinfonia tratarei
uma a uma também as suas seis. Deixo-lhes porém desde já uma que está entre
suas maiores, a terceira, digna de contar-se entre as de Bruckner, as de
Mahler, as de Schmidt; e desprezem a pintura que se estampa no Youtube: não tem
nada que ver com a obra.
Observação.
Contemporâneo e conterrâneo de Jean Sibelius (1865-1957) – que sempre escutou
com lágrimas nos olhos as sinfonias de Bruckner, para ele o maior compositor de
todos os tempos –, a obra do Melartin sinfonista tem influência múltipla:
Bruckner, Mahler, o mesmo Sibelius, etc. Mas não se trata de epígono: é
artista de voo próprio, e sua obra, como a de todos os grandes artistas, mescla
suas influências numa síntese de todo particular.