quinta-feira, 11 de agosto de 2016
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Arvo Pärt: Como anhela la cierva/Como cierva sedienta (original version, 1998) - Obra-mestra
Diz o Salmo:
"Assim como a corça suspira pelas fontes das águas, assim minha alma suspira por ti, ó Deus."
Year of composition:
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1998/2002
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Scored for:
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for soprano or female choir and orchestra
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Composer:
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Text Source:
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Bible, psalm 41 or 42
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Original Language:
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Spanisch
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Choir:
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SA (unisono)
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Soloinstruments/Soloists:
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soprano
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Instrumentation:
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3 3 3 3 - 4 2 3 0 - timp, perc(5), hp, str
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Instrumentation details:
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piccolo
1st flute
2nd flute (+alto fl)
1st oboe
2nd oboe
cor anglais
1st clarinet in Bb
2nd clarinet in Bb
bass clarinet in Bb
1st bassoon
2nd bassoon
contrabassoon
1st horn in F
2nd horn in F
3rd horn in F
4th horn in F
1st trumpet in C
2nd trumpet in C
1st trombone
2nd trombone
3rd trombone
timpani
percussion(5)
harp
violin I
violin II
viola
violoncello
contrabass
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Commissioned by:
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Obra escrita por encargo de
15° Festival de Música de Canarias 1999
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Remarks:
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Former title: Como anhela la cierva
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Duration:
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30′
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Dedication:
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für Caecilia
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Postado por
Carlos Nougué
às
15:03
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sábado, 30 de julho de 2016
Análise das sinfonias de Bruckner – II: As primícias (2)
2. Abertura (Overtüre) em sol menor (G. A. 63)
Esta Abertura
é uma das mais originais das obras brucknerianas de estudo. Com efeito,
encontram-se nelas já importantes traços do futuro sinfonista, conquanto ainda
seja algo acentuada a presença de outros: Schubert, pela semelhança dos
primeiros compassos com Alfonso e
Estrella; e Mendelssohn, sobretudo pelo tema de seu Allegro principal. Mas
a feição geral é antes clássica. De fato, Bruckner pode aqui familiarizar-se com
a forma sonata, ainda que o faça antes para ir além dela.
Analisa-a Langevin:
«Adagio –
Allegro non tropo. 293 compassos, C, sol
menor.
Dois elementos fortemente contrastados formam a
matéria da introdução lenta: o tutti em salto de oitava (comp. 1), imediatamente
seguido de um solo de violoncelo (comp. 3) que se desenvolve brevemente segundo
um tratamento contrapontístico com reforço do ritmo. O Allegro principal toma
impulso, no compasso 23, nos violinos, sobre um staccato das violas. Logo,
largos acordes de toda a orquestra, aos quais respondem rápidas cascatas das
cordas, afirmam o caráter imponente que o compositor pretende dar à sua obra. A
melodia do segundo grupo (comp. 64, em si
bemol maior), igualmente tocada pelos violinos, é anunciadora dos grandes temas
líricos das futuras sinfonias: ninguém além de Bruckner teria podido escrever
este episódio, muito modulante, com a resposta, igualmente típica, das madeiras
(comp. 72).
O
desenvolvimento abre-se, no compasso 92, sobre os grandes acordes do primeiro
grupo. É extenso (100 compassos) e muito animado. A reexposição (comp. 192)
efetua-se regularmente no tom principal; é sensivelmente reforçada, e desemboca
numa vasta peroração (quase um segundo desenvolvimento!), fundada também na
ideia secundária do primeiro grupo. Quando reaparece o tema principal (comp.
281, na trompa), dá lugar ao que bem se pode chamar o primeiro traço de gênio de
Bruckner: uma resposta, de odor deliciosamente pastoral, dos clarinetes
seguidos dos oboés, sobre calmos conjuntos de cordas. E a orquestra inteira
une-se para os largos acordes conclusivos.
Composta de 24 de dezembro de 1862 a 23 de janeiro de
1863, a Overtüre foi impressa pela
primeira vez em 1921 (Universal Edition), com indicações de movimento e de
acentuação completadas por Josef von Wöss. No mesmo ano, foi executada sob a
regência de Franz Moissl.»
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Carlos Nougué
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terça-feira, 26 de julho de 2016
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Análise das sinfonias de Bruckner - I: As primícias (1)
C. N.
A série de postagens que se inicia aqui será de certo modo parte de
um livro que pretendo concluir brevemente. Nesta série, analisar-se-ão
uma a uma as obras sinfônicas de Anton Bruckner (Áustria, 1824-1896). Nela não
insistirei em que julgo o ciclo de sinfonias de Bruckner a cúspide da música
orquestral e sinfônica, e em que ao Austríaco o incluo entre os maiores artistas
de todos os tempos. Destes pontos, tratarei a fundo no referido livro; mas já o
fiz algo aprofundadamente, ou reproduzi textos de outros que o fazem, em diversos
artigos desta página.[1]
Antes da análise de cada uma das sinfonias
brucknerianas – cuja reprodução aqui visa a facilitar a audição destas peças –,
porei algumas palavras minhas, à guisa de introdução. Mas as análises mesmas
serão traduções das feitas por P.-G. Langevin em seu livro Bruckner (Lausanne, l’âge d’homme,
1977, 384 pp.). Não deixarei todavia de intervir, entre colchetes, sempre que
me parecer necessário, a título ou de complementação, ou de discrepância com o
autor.
Começamos hoje com a primeira parte das primícias do Bruckner sinfônico.
As primícias (I)
Bruckner, como se dirá mais detidamente no referido
livro, retirou-se por muito tempo para o aprendizado tenaz e paciente da
composição musical, especialmente a orquestral.[2]
Mas este mesmo tempo se divide em duas fases. Na primeira, muito mais longa que
a outra, Bruckner faz-se senhor de todas as sutilezas da escritura
contrapontística e clássica. A segunda, ao fim da qual “a crisálida enfim se
rompe” (Langevin), dura dois anos: é o tempo da metamorfose, sob a batuta de
Otto Kitzler (1834-1915), e pelo contato com a música de Wagner (cuja influência
sobre Bruckner, como o mostraremos no lugar já referido, se não é desprezível –
sobretudo em termos de orquestração e de certos temas –, sempre foi porém demasiado
encarecida).[3]
Foi durante essa segunda fase que Bruckner compôs as
primícias de sua arte sinfônica: três Marchas;
três Peças de Orquestra; uma Abertura; e a Sinfonia de Estudo em fá
menor, também conhecida por 00.[4]
Cada uma destas obras tem apenas uma redação (se se excetuam as correções de
Kitzler à sinfonia).[5]
Os manuscritos de todas estas peças de estudo, confiou-os tardiamente Bruckner
a um aluno seu, que os legou à cidade de Viena. Quanto à edição, terão destino
diverso, que se irá precisando aqui.
1. Três Peças de Orquestra (G. A. 62); três Marchas (G.A. 60, 61, 73)
Estas peças, todas de 1862, aparecem pela primeira
vez no segundo volume de inéditos de Goellerich. São, repita-se, a estreia de Bruckner na
composição propriamente dita para orquestra: anteriormente, com efeito, não o
havia feito senão para acompanhamento de páginas corais, etc. “Aqui”, escreve
Langevin, “trata-se da orquestra beethoveniana normal, e Bruckner parece ter
tomado por modelo os interlúdios escritos por Kitzler para suas representações teatrais.”
Prossegue Langevin:
«A primeira [das Três Peças de Orquestra], Moderato, em mi bemol (36 compassos, C [= 4/4]), é a mais interessante pela ressonância
já “bruckneriana” do primeiro tutti (comp. 6), com sua modulação em dó maior. A segunda, em mi menor (48 compassos, C), é eminentemente
schubertiana pela sonhadora melodia do oboé sustentado pelo fagote: até em seu
breve crescendo central, tomar-se-ia por algum entreato desconhecido de Rosamunde. [Vejo também aí, todavia, uma semelhança de Bach.] A última, em fá maior (66 compassos ¾, incluído o da
capo), impressiona por seu início veemente e reveste-se da forma de um breve
Scherzo com seu Trio: este se distingue pelo acompanhamento sincopado das
cordas, o qual já se encontrava no Requiem
e voltará a encontrar-se no nosso músico.
A estas peças associa-se geralmente a Marcha em ré menor, G. A. 61,
imediatamente anterior, e que assume igualmente uma forma tripartite, nitidamente
mais desenvolvida. De cor local muito acusada [ou seja, a cor austríaca ou vienense, quase sempre de algum modo presente na música bruckneriana], segue-se a outra marcha militar escrita
por Bruckner com o título de Apollo-Marsch (primeiro ensaio de instrumentação para metais,[6]
seguido em 1865 de uma última Marcha,
igualmente em mi bemol). Estas três
marchas figuram também nos anexos de Goellerich, em redução pianística. Na Marcha em ré menor, já encontramos [...]
o protótipo de todos os futuros Scherzi brucknerianos; ela é interessante
também pela similitude de seu tema com o tema inicial da Primeira Sinfonia. As outras duas são curiosos exemplos de música
militar vienense, próximas de [Franz von] Suppé; no entanto, a autenticidade da
Apollomarsch não é certa.»[7]
(Continua, com a segunda parte das Primícias.)
[1] Cf. especialmente: Bruckner: música maior e
católica em meio ao romantismo; Que tem da música de Bruckner a
música de Egon Wellesz?; A música majestosa de Franz
Schmidt; “Bruckner era ‘demasiado’
católico para os moldes do Romantismo musical”; A arte sinfônica de Anton
Bruckner: o cume da música instrumental; Por que e em que sentido
dizemos que Dvořák é superior a Bruckner na música religiosa; A “Oitava Sinfonia” de Bruckner (e um vídeo com Karajan e a
Filarmônica de Viena interpretando-a); A “Oitava Sinfonia” de Bruckner
– outro monumento musical; Bruckner por Celibidache – a música em ordem à eternidade;
Gunter Wand & Orquestra
Filarmônica de Berlim: Anton Bruckner, Sinfonia n. 9; Um acabamento da inacabada
“Nona Sinfonia” de Bruckner.
[2] E também nisto se
assemelha a outro católico e grande compositor, César Franck. “Muitos
comentadores”, escreve Langevin, “sublinharam o paralelo entre os dois grandes
músicos”. Tratá-lo-emos no livro.
[3] Vide especialmente a comparação que faz Mauro Machado Coelho (em Bruckner, o Menestrel de Deus) entre os
dois compositores. Voltarei a tratá-lo aprofundadamente no livro. – Aquele demasiado
encarecimento da influência de Wagner sobre Bruckner resulta de uma visão
historicista da arte (e da música): cada compositor estaria para os que o influenciaram
como uma fatal continuidade histórica, e não, como de fato se dá, como síntese absortiva das mesmas influências, não necessariamente superior a estas. No caso de
Bruckner, como se verá no devido lugar, não só se trata de síntese (analogamente
a como a doutrina de Santo Tomás de Aquino é uma síntese – não um mosaico – de tudo quanto de verdadeiro a antecedeu), mas esta
síntese sinfônica é superior a toda a influência musical que ela absorveu.
[4] Poder-se-iam incluir
entre tais primícias ainda um Quatuor
e um Rondó.
[5] Como se verá, as futuras
sinfonias de Bruckner como que se esgarçam entre vários manuscritos e edições.
[6] A título de ilustração para os
iniciantes, diga-se que uma orquestra sinfônica se compõe de cinco classes ou seções de instrumentos:
• as cordas
(violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas, etc.);
• as madeiras
(flautas, flautins, oboés, corne-inglês, clarinetes, clarinete baixo, fagotes, contrafagotes);
• os metais
(trompetes, trombones, trompas, tubas [em Wagner e em Brukner, tubas
wagnerianas]);
• os instrumentos
de percussão (tímpanos, triângulo, caixas, bombo, pratos, carrilhão
sinfônico, etc.);
• os instrumentos
de teclas (piano, cravo, órgão).
Os metais serão centrais na orquestração sinfônica
bruckneriana: chamo-os aí “as trombetas da fé”.
[7] Links quanto a esta Marcha:
• Military
march (Bruckner): Scores at the International Music Score
Library Project.
• Marsch Es-Dur,
WAB 116 Critical discography by Hans Roelofs (German).
• A
performance of Bruckner’s Military march by the United States Coast Guard Band can
be heard on John Berky's website: March
in E Flat, October 2013.
• Another
performance by the Tokyo Wind Sinfonica can be heard on YouTube: Marsch in Es-Dur (WAB 116),
January 2015.
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Carlos Nougué
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Bruckner Symphony No 8 (Celibidache, Münchner Philharmoniker): "A mais bela sinfonia jamais escrita"
Foi Celibidache quem o disse; e não podemos senão concordar com ele. É obra de um mestre que já é senhor cabal de todos os seus meios. Tudo aqui é perfeito. Mas de destacar, como se fora possível, é o Finale (Fierlich, nicht schnell), que Celibidache, como Jochum e Wand, mantém íntegro segundo a edição de Robert Haas, contrariamente ao que faz Klemperer (por motivos antes obscuros ou idiossincrásicos).
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sábado, 23 de julho de 2016
Bruckner Symphony No 5 (Celibidache, MPO): As trombetas da fé / Bruckner por Celibidache
Bruckner por Celibidache – a música em
ordem à eternidade
C. N.
Cada um a seu modo, três maestros entenderam mais
perfeitamente a música de Bruckner e sua ordem à eternidade: Eugen Jochum,
Günter Wand, e o romeno Sergiu Celibidache. Pois bem, os dois vídeos com este
último cujo enlace se dá abaixo falam por si. Não deixem de guardá-los: são
documentos inestimáveis para os amantes da música devidamente ordenada e
avessos ao dionisíaco musical. Particularmente de recomendar é o vídeo sobre a Nona
Sinfonia de Bruckner: além da magistral aula de regência, de música,
de arte, mostra ali Celibidache, para os que têm ouvidos de escutar, por que
Bruckner é inigualável; atente-se especialmente a tudo o que diz em sua visita
a St. Florian. Mas a ambos os vídeos é impossível assistir sem admiração ou sem
emoção.
Observação. Particularmente com Bruckner o maestro romeno
exercita sua tendência a executar a música mais lentamente que os demais. À Oitava
Sinfonia de Bruckner, por exemplo, enquanto os demais lhe dão duração de entre 1,15 e 1,25 h, Celibidache lhe dá a de 1,42 h.
Em tempo. Fiquem, ademais, com enlace para todas
as sinfonias de Bruckner que Celibidache regeu, além do Te Deum.
Não deixem de guardar todos estes importantes documentos:
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Carlos Nougué
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domingo, 17 de julho de 2016
Gunter Wand & Orquestra Filarmônica de Berlim: Anton Bruckner, Sinfonia n. 9
Reflexões sobre a Nona Sinfonia de Bruckner
O enfrentamento das forças rítmicas elementares dos intervalos temporais pares e ímpares atravessa à maneira de um fio condutor toda a produção sinfônica de Anton Bruckner. Desempenha um papel importante na invenção dos temas, no seio dos quais se sucedem duínas e tercinas de mesma duração, mas mais ainda enquanto contraponto rítmico quando as forças, que por sua natureza se afastam umas das outras ao desenrolar-se, são canalizadas, como por encanto, no mesmo intervalo de tempo. É notadamente a esse dualismo rítmico de todo próprio de Bruckner que o pujante movimento de pêndulo de sua música sinfônica deve seu impulso e seu violento ardor. Aqui se revelam teores que ultrapassam de longe o puro domínio do ritmo musical. É como se esse dualismo tivesse valor de símbolo do que é inconciliável na natureza humana e da aspiração a vencer essa incompatibilidade.
O senso infalível de Bruckner para a dependência entre tempo e espaço é a argamassa que faz manter-se a rocha primitiva de que se erguem suas catedrais sinfônicas. A arquitetura de sua música resulta, com efeito, menos do desenvolvimento do material temático, como é, por exemplo, o caso na música sinfônica clássica, que do equilíbrio tanto sonoro e dinâmico quanto espacial e temporal dos blocos temáticos que se defrontam. Se a confrontação de valores rítmicos pares e ímpares e a tentativa de fundi-los no mesmo intervalo de tempo conduzem a explosões e sacudidelas que fazem pensar em erupções vulcânicas e até em fenômenos cósmicos, o fato de dobrar e de triplicar os valores de notas, de passar diretamente, por exemplo, de tercinas de colcheias a tercinas de semínimas e de mínimas, produz menos a impressão de desaceleração do tempo que a de alargamento do espaço (final da Quarta Sinfonia).
Há na música de Bruckner períodos em que as leis de tensão e de distensão parecem abolir-se. Diversos impulsos rítmicos de mesma natureza se superpõem, em parte num duplo intervalo temporal. Resulta disso um fenômeno singular: a forma animada pelos sons produz o efeito de estar estático, de maneira comparável à imagem das estrelas no firmamento noturno, as quais descrevem sua trajetória mas parecem imóveis. É tão somente por momentos que a música de Bruckner mergulha nessas dimensões, como, por exemplo, no “desenvolvimento” do primeiro movimento da Nona, mas já também no stretto marcado ppp no seio do final fugado da Quinta.
Em tudo isso, jamais se tem a impressão de que tais efeitos de energias rítmicas sejam fabricados ou calculados, ou de que se trate de marcas de um refinamento composicional particular (como, por exemplo, quando no Quarteto para Oboé de Mozart o oboé prossegue sozinho em seu caminho de 4/4 enquanto as cordas tocam no compasso de 6/8). Não, a força imperiosa dessas inspirações parece antes pertencer à natureza das coisas, em tudo conforme à forma e à beleza naturais de temas únicos em seu gênero.
Mais pronunciada em comparação com as sinfonias anteriores, a rudeza da imagem sonora da Nona, a qual produz por vezes o efeito de um distanciamento consciente, decorre da extrema consequência que preside a conduta polifônica das vozes, a qual irrita muitos ouvidos à primeira audição. Ela é expressão de um isolamento do mundo, de uma profunda veracidade que, após tantas visões extáticas da glória do outro mundo, está igualmente em condição de formular a mais vertiginosa dissonância. Esse grito terrível, no qual parece ressoar até ao fim dos tempos o lamento da humanidade a chorar o paraíso perdido, não pode por si mesmo encontrar solução nem redenção. Vem em seguida a ele o silêncio, e depois o abandono à fé, que é segurança e refúgio. A sonoridade parece desprender-se da matéria, e doravante o pulso da música bate até à transfiguração final na certeza do non confundar in æternum.
* Maestro alemão (1912-2002), um dos dois maiores intérpretes do Bruckner sinfônico (o outro é o austríaco Eugen Jochum, que, todavia, é sem dúvida o principal intérprete da música religiosa do compositor, enquanto Wand, pelo que sei, nem sequer a gravou). – Esta tradução se fez de texto para a caixa RCA das Sinfonias 1-9 de Bruckner por Wand (com a Kölner Rundfunk-Sinfonie-Orchester).
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Carlos Nougué
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sábado, 16 de julho de 2016
Marc-Antoine Charpentier - Te Deum H.146 (Marc Minkowski) - Um dos pontos altos do barroco
Marc-Antoine Charpentier (1643-1704) - Te Deum H.146
1. Prelude (Marche en rondeau)
2. Te Deum laudamus (bass solo)
3. Te aeternum Patrem (chorus and SSAT solo)
4. Pleni sunt caeli et terra (chorus)
5. Te per orbem terrarum (trio, ATB)
6. Tu devicto mortis aculeo (chorus, bass solo)
7. Te ergo quaesumus (soprano solo)
8. Aeterna fac cum sanctis tuis (chorus)
9. Dignare, Domine (duo, SB)
10. Fiat misericordia tua (trio, SSB)
11. In te, Domine, speravi
Annick Massis
Magdalena Kozena
Eric Huchet
Russell Smythe
Patrick Henckens
Jean-Louis Bindi
Les Musiciens du Louvre
Marc Minkowski Conductor
1. Prelude (Marche en rondeau)
2. Te Deum laudamus (bass solo)
3. Te aeternum Patrem (chorus and SSAT solo)
4. Pleni sunt caeli et terra (chorus)
5. Te per orbem terrarum (trio, ATB)
6. Tu devicto mortis aculeo (chorus, bass solo)
7. Te ergo quaesumus (soprano solo)
8. Aeterna fac cum sanctis tuis (chorus)
9. Dignare, Domine (duo, SB)
10. Fiat misericordia tua (trio, SSB)
11. In te, Domine, speravi
Annick Massis
Magdalena Kozena
Eric Huchet
Russell Smythe
Patrick Henckens
Jean-Louis Bindi
Les Musiciens du Louvre
Marc Minkowski Conductor
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terça-feira, 12 de julho de 2016
Jorge Bolet plays Franck Prélude, aria et finale
Prelude
Clocking in at around 10 minutes, the very title Prelude seems a bit misleading. It is, in fact, a fully-fledged sonata movement, complete with developmental fugue (!), and is the largest in scale, texture, and density of any of the movements. The opening chordal theme, marked Allegro moderato e maestoso, is warm, lush, and (somehow not conflictingly), march-like. Here and throughout one hears organ textures aplenty—thick, chordal writing is standard, but it is always rich with counterpoint. Additionally, the formal proportions are quite clear—a cadential trill and pause will mark the appearance of the second, more pensive, theme, first framed in high register (here again the organ’s antiphonal facility is invoked, with soprano statements answered by mellower treble/bass statements). The first truly turbulent music will be seen prior to another clear break which precipitates the development, which itself begins with a dark, severe and jagged fugue subject (an unorthodox subject in octaves). This slow-burn fugue will reach a violent outcry, which is suddenly assuaged by the most luminous, cantabile melody, carried downward by a rippling undercurrent. The recapitulation is again framed clearly, and will arrive in a most sublime way at the coda (for those interested in harmony, one of the most beautiful and unexpected modulations occurs here, when Franck introduces by deft slight-of-hand, the Neapolitan key).
Aria
As its title suggests, this is a cantabile movement whose inspiration is most likely domestic/secular, but it often approximates in texture the Chorale movement of Franck’s other, more well-known work for piano (the Prelude, Chorale and Fugue). Things often occur in threes in Franck’s music, and this movement is a good example—after the improvisatory introduction, Franck gives three melodic cells; the first is child-like, simple, and seems to have the contour of a cradle song. The second is closely related, but intimates by its harmonic complexion more troubled inner impulses. The third melody is truly “Franckian”; the most chromatic, and with Wagnerian harmonies underneath. When each melody appears it is stated twice—once in the soprano and then in the bass—and throughout the movement this happens twice (for a total of six). Franck’s reliance on this scheme verges on dangerous—one further statement could weary the listener. In fact, it may be an intentional red herring—the very opening (and closing) melody, in high relief atop a swath of arpeggios, will prove to be a much more important component of the whole work (this is seen in Finale).
Finale
This is one of the truly virtuosic, exciting Romantic finales (and remains, along with its two preceding companions, undeservedly under-played). The opening chromatic rumble will be recognized as a counter-subject in the dark fugal development of the Prelude—here it is a theme in its own right, and one of malevolent intentions. Its harmonic twisting and side-stepping is nearly exhausting, and is only supplanted by the most heroic impulses of the second theme whose march-like chords reach the physical extremities of the keyboard. This theme will be framed again under a shimmering, joyful right hand just prior to the development. Franck’s love of cyclical music (if not clear from the Finale’s outset) is certainly obvious around the middle of the development—after the opening rumbling theme, the Aria’s childlike theme appears, almost celestial amidst a constellation of arpeggios. But it is the moment of the coda’s onset which is perhaps the most exhilarating cyclic achievement in the entire work—here, over a thundering torrent of octaves in the bass, the opening maestoso theme of the Prelude appears triumphantly. Immediately following is a passage of sublime beauty—Franck has wedded this theme (the Prelude’s opening) to the first theme of the Aria in an opalescent couching of arpeggios. This is at once recognized as the moment of complete cyclical consummation—all themes have been brought together. Listeners will be struck at the optimistic, patient way Franck achieves this; where the cyclical point of the Prelude, Chorale and Fugue is certainly on a more thunderous, epic scale, the one seen here is quietly understated, and is allowed to play out and deliquesce with a graceful tranquility.
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Carlos Nougué
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Jorge Bolet plays Franck Prélude Choral and Fugue
A melhor interpretação que já me foi dado ouvir desta peça; e Jorge Bolet, com efeito, parece estar em terreno próprio com a música de César Franck. Imprime-lhe limpidez e solenidade. Grande pianista, sem dúvida.
Ver também:
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Em homenagem a Chopin, o melhor de sua obra - The 21 Nocturnes (Claudio Arrau)
Mas, como diz o Abbé Jalowicki,
"sua morte foi o mais belo concerto de toda a sua vida".
The Death of Chopin – A morte católica de Chopin
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segunda-feira, 11 de julho de 2016
sábado, 9 de julho de 2016
Did Bach Hate Pianos?
[Observação:
indicou-nos este excelente artigo Cleverson Casarin Uliana,
a quem não podemos senão agradecer.]
In the
comment section of my post “How ‘forgotten’ was Bach?”,
reader Cleverson wrote:
Speaking of Bach, you
could also write something against a myth that exists among some music
teachers, at least here in Brazil, who say that “Bach hated pianos.” They use
such a lie to discourage students from making use of specific features of the
piano as an instrument when playing Baroque repertoire.
Cleverson
also mentioned coming across the explanation that Bach played an early piano
and didn’t like that particular model, but when he came across an improved
version later, he liked what he heard.
This
“Bach hated pianos” idea intrigues me, mostly because of how Cleverson says
it’s used to dictate performance practice. I’ll share my thoughts on that in a
bit, but first I have to take care of the myth itself: Did Bach hate pianos?
Pianos
plural? No. And “hate” is probably too strong of a word to describe how he felt
about the first piano he played. I did some digging and found that Cleverson is
basically correct in the refutation of the myth. A Dresden instrument maker
named Gottfried Silbermann read an article about Bartolomeo Cristofori’s new
invention (what would become the piano), and he attempted to build one on his
own. From here, I’ll let one of Bach’s contemporaries, Johann Friedrich
Agricola, tell you what happened around the year 1736:
One of [Silbermann’s
pianofortes] was seen and played by the late Capellmeister, Mr. Joh. Sebastian
Bach. He praised, indeed, admired, its tone; but he complained that it was too
weak in the high register and too hard to play. This was taken greatly amiss by
Mr. Silbermann, who could not bear to have any fault found in his handiworks.
He was therefore angry at Mr. Bach for a long time. And yet his conscience told
him that Mr. Bach was not wrong. He therefore decided—greatly to his credit, be
it said—not to deliver any more of the instruments, but instead to think harder
about how to eliminate the faults Mr. J.S. Bach had observed.
(This
was quoted in Christoph Wolff’s Johann Sebastian Bach: The Learned
Musician on page 413.)
So,
indeed, Bach played a prototype piano and offered critical feedback on how it
felt and the sound of the upper register. This should certainly not be
interpreted as Bach dismissing every incarnation of the piano, particularly
since Bach’s exposure to the piano doesn’t end there.
As
described in Giraffes, Black Dragons, and Other Pianos: A Technological
History from Christofori to the Modern Concert Grand by Edwin M. Good,
after Silbermann incorporated Bach’s criticism into his new instruments,
Frederick the Great of Prussia was so impressed with the result that he bought
out Silbermann’s inventory, 15 pianos total. Frederick’s court harpsichordist
was none other than Carl Philipp Emanuel Bach, Johann Sebastian’s second oldest
(surviving) son. When the older Bach went to visit his son in Berlin in 1747,
Frederick was eager to show off his new pianos. He gave Bach a theme upon which
to improvise on the piano, and that later became the basis of Bach’sThe
Musical Offering. Musicologist and pianist Charles Rosen went
so far as to call a movement of The Musical Offering “the most
significant piano work of the millennium, as it is perhaps the first piece
composed for the recently invented piano -- at least, the first piece that a
composer knew would certainly be played on a piano.” Even though some of the
pianos from Frederick’s collection have survived into the 21st century,
unfortunately the exact piano played by Bach was destroyed in World War
II.
Even
more damning against the “Bach hated pianos” claim is the fact that Bach went
on to become an agent for Silbermann, selling his pianos in Leipzig. There’s
even a receipt signed by Bach on May 9, 1749, selling a “Piano et Forte” to a
Polish count, Jan Casimir von Branitzky.
So,
Bach did not hate pianos. When I asked my pianist friends,
none of them had heard the claim that he did, and I didn’t really find anything
like that on the English-speaking internet. Since I don’t speak Portuguese,
I’ll take Cleverson’s word for it that this is something that has been going
around in Brazil. So, Cleverson! I hope this is sufficient evidence for you!
As I
mentioned, what intrigues me most is how Cleverson says that the myth is used
to discourage student from playing Bach certain ways. After all, even if Bach
hated pianos (which he didn’t!), why should that even matter? It sounds like
these teachers are trying to encourage “historically informed performance,” an
approach to playing music that attempts to sound as close as possible to what
it would have sounded like when it was written.
As
sensible as historically informed performance sounds, it’s actually a hotly-debated
topic. Sound recordings didn’t exist in Bach’s era, so all we have to go on are
music notation, written descriptions, and paintings. Even those have their
limitations—the way we understand the world is fundamentally different from
18th-century perceptions, so our interpretation of notation and words is likely
not completely accurate. Still, I believe there is merit to this approach, in
that it engages the historical imagination.
The
problem comes when people claim that this purism better reflects the intent of
the composer. “Composer intent” is another much-debated topic
(seriously, musicologists will debate anything), and once again, it’s tied to
the idea that the Composer is a Great Man and an Artist-Hero. That’s more of a
19th-century construct, and Bach most likely wouldn’t have thought of his own
compositions in that way. He was very pragmatic; he made use of the instruments
he had at hand, and I doubt he would have been upset to find out that some
works he wrote for the clavichord or harpsichord were later being played on
piano. Bach didn’t expect his role as the composer to overrule logistical
factors in the realization of his works. This poses a paradox: How can we be
faithful to “composer intent” for composers from the time before “composer
intent” was a consideration?
It
reminds me of an argument I got into after giving a mid-concert lecture on
Bach’s sixth cello suite. I was speaking at a performance of the suite on
viola, and I mentioned that Bach probably wouldn’t have minded that it was
being performed on the “wrong” instrument. Afterward, a man in the audience
took issue with what I said, arguing that I should have more respect for the
fact that Bach chose to write the suite for the cello, and Bach made artistic
judgments based on the qualities of the instruments he chose. I disagreed,
pointing out some non-idiomatic writing for trumpet in the Brandenburg
concertos, and how Bach transcribed some Vivaldi string concertos for organ.
But the man was convinced that Bach was the Genius, and I was disrespecting him
when I said his music could be played on just any old instrument.
Well,
I’m a violist, so maybe I’m predisposed to being okay with transcriptions
because violists have stolen (ahem, borrowed) so much repertoire
from other instruments. As a musicologist, though, I still believe that Bach
was not persnickety about what type of instrument his music was played on. He
would probably be amused (and bemused) that we, nearly three centuries later, even
care what he thought.
Thanks
to Cleverson for the topic, and to Alejandro Planchart, Jonathan Bellman, Luke
Taylor, and Bryan Proksch for pointing me toward the right sources!
If you
have a musical myth you’d like me to check out, please let me know in the
comments, with an email to musichistorycliches@gmail.com, on my Facebook page, or via Twitter.
Sources:
Giraffes,
Black Dragons, and Other Pianos: A Technological History from Christofori to
the Modern Concert Grand by Edwin M. Good (1982)
Johann
Sebastian Bach: The Learned Musician by Christoph Wolff
(2000)
“Best
Piano Composition; Six Parts Genius” by Charles Rosen in The New York
Times (1999)
http://www.nytimes.com/1999/04/18/magazine/best-piano-composition-six-parts-genius.html
http://www.nytimes.com/1999/04/18/magazine/best-piano-composition-six-parts-genius.html
For a
thoughtful essay in defense of playing Bach on the piano, please
read this essay by harpsichordist Rosalyn Tureck: http://www.tureckbach.com/publication-documentation/page/piano-harpsichord-or-clavichord
Postado por
Carlos Nougué
às
21:00
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