Páginas

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

“Rope”: uma pérola de Alfred Hitchcock



Carlos Nougué

Baseado num caso verídico (o de “Leopold e Loeb”, dois estudantes da Universidade de Chicago que em 1924 mataram Bobby Franks, de 14 anos de idade, apenas pela vontade de cometer um crime perfeito),[1] Rope (“Corda”, e no Brasil Festim Diabólico) é uma parábola contra o nietzschianismo e sua raça de homens superiores. Mas não só isso: o par de homossexuais e nietzschianos (Brandon e Philip) que no filme comete o que julga um assassinato perfeito aprendeu o nietzschianismo na universidade, vive no meio de uma sociedade fútil e vale-se em seu ato macabro de uma como missa negra.
O cinema de Hitchcock é excelente em duplo sentido.
1) Antes de tudo, em termos técnicos, é muito superior ao mesmo cinema americano em geral. Neste, e neste sentido, talvez só o cinema de John Ford consiga equiparar-se ao de Alfred Hitchcock. Naturalmente, ambos estes cinemas não deixam de ter o selo da sociedade americana, conquanto Ford fosse de família irlandesa, Hitchcock fosse inglês, e ambos fossem católicos (ainda que não raro impregnados de liberalismo). E naturalmente ambos estes cinemas são muito diferentes do de um Tarkovski ou do de um Ozu. Mas, em princípio, tal diferença não se dá em detrimento de um lado nem de outro. – No caso de Rope, que foi o primeiro filme colorido do diretor,[2] destaca-se o ter sido todo rodado em tomadas contínuas de cerca de dez minutos (ou seja, em planos-sequência), com somente oito cortes, mas editados de modo tal, que se tem a impressão de não ter havido corte algum durante a filmagem.[3] Não é recurso gratuito: ao contrário, perfeitamente adequado à ideia orgânica do filme, eleva ao ápice o que talvez se possa dizer o mais próprio do cinema, ou seja, a mobilidade da câmara, que funciona em Rope como se fora um olho onisciente e onipresente.  
2) Depois, apesar das marcas do liberalismo e de sua aparência de mero espetáculo de suspense, os filmes de Hitchcock desenvolvem-se não raro em torno de alguma ideia cristã: queda, punição, redenção, sobretudo. Em suma: são filmes (muitos, não todos) que se valem de recursos artísticos de fácil assimilação com um fim, em princípio, bom. – Aliás, tampouco o ser de fácil assimilação para muitos ou o sê-lo só para poucos são diferenças que impliquem por si superioridade para qualquer dos dois lados. Com efeito, quantos podiam (ou podem) ler a Eneida? Os vitrais das catedrais góticas, por outro lado, perdem nobreza artística por serem de imediata compreensão para todos?
Mas o que mais importa dizer aqui é que Rope alcança perfeitamente o duplo objeto artístico e cumpre perfeitamente seu fim: é uma primorosa fábula moral. Mais que isso, porém: não incorre no principal defeito do cinema de Alfred Hitchcock,[4] a saber, o erotismo. Bem sei que este é hoje assunto espinhoso: vivemos numa sociedade hipererotizada. Se porém o estudo desta sociedade deve fazer-se em outro âmbito (ético, político, teológico), pode-se perfeitamente negar a validade do erotismo já no mesmo âmbito artístico, e em especial no cinematográfico. Com efeito, dado tudo o que implicam de voraginoso, o erotismo e o sexo numa obra literária não podem senão distrair o leitor do fim desta: e tal distração ou desvio é em si mesmo artisticamente falho.[5] Imagine-se agora a voraginosa capacidade de distração que o erotismo tem numa arte tão radicalmente realista como o cinema: um beijo longo e filmado em close (como os que maculam Vertigo, do mesmo Hitchcock) não pode deixar de ser um beijo real. Um assassinato no cinema (como o de Rope) não é real, e todos os que assistem a um assassinato no cinema sabem que não é real.[6] Mas uma cena erótica como um beijo de Vertigo não só não pode deixar de ser real, senão que arrasta em sua voragem a assistência: e isto é desviar, em Vertigo por exemplo, do fim do filme. Ora, um meio que desvie ou distraia do fim é um mau meio, e por isso mesmo, se se dá numa obra de arte, a arruína.[7]
Para um termo de comparação, e para terminar este artigo: note-se a delicadeza e a elevação verdadeiramente artísticas com que Andrei Tarkovski filma – “metaforicamente” – um ato conjugal nesta cena, e ter-se-á a dimensão de quão nefasto é o erotismo nas artes em geral e no cinema em especial.



[1] Leopold e Loeb foram condenados à prisão perpétua.
[2] Também a cor, nos filmes de Hitchcock, é tratada de modo estritamente artístico e expressivo.
[3] Na época, os rolos não podiam filmar mais que dez minutos.
[4]  Defeito que se mostra claramente já desde sua primeira película.
[5] Se porém determinada obra tem por fim o mesmo erotismo, então nem será obra de arte por nenhum aspecto.
[6] Embora tampouco seja conveniente um assassinato no cinema se não se faz com decoro. (Para decoro, vide “Vá e Veja”, de Elem Klimov.) Além disso, naturalmente, filmes como Rope ou como e Veja não devem ser vistos por pessoas de qualquer idade. Aliás, numa sociedade devidamente ordenada, dir-se-ia que não devem ser vistos senão por pessoas virtuosas. Ou se negarão os abismos de perversidade em que é capaz de engolfar-se uma alma não virtuosa ante o menor estímulo?   
[7] Lembre-se que o fim das artes do belo em geral é fazer tender ao bem e ao verdadeiro mediante o belo e fazer afastar-se do mal e do falso mediante o horroroso.        

sábado, 10 de setembro de 2016

Da Arte de Traduzir


Carlos Nougué

I

A Tradução, arte subalternada à Linguagem e à Gramática, tem por duplo objeto 1) o discurso ou o texto por traduzir e 2) seu destinatário, ou seja, fazer compreensível a este, em sua língua, o dito ou o escrito em outra língua; e tem por fim contra-arrestar a própria multiplicidade das línguas. Com efeito, a linguagem visa à comunicabilidade universal entre os homens – ou seja, a atender à sua natureza social e política –, e a multiplicidade linguística vai a contrapelo dessa tendência e natureza, razão por que diz com toda a razão Aristóteles que os que falam línguas diferentes não convivem bem.[1]

II

Mas a Tradução é um gênero que se divide em duas espécies: a Tradução Oral e a Tradução Escrita. Esta, por sua vez, também é gênero de duas espécies: a Tradução Stricto Sensu e a Tradução Literária. Esta última, todavia, é igualmente um gênero, que, por seu turno, se divide em três espécies: a Tradução Poética, a Tradução Dramática e a Tradução de Prosa Literária. Ademais, e para complicar um pouco o assunto, muitos filósofos, teólogos, historiadores... se valem de recursos literários como arte aplicada, com o que o que os traduz tem de valer-se de recursos tradutórios hauridos da Tradução Literária. Como se fora pouco, todo tradutor multilíngue sabe que uma coisa é traduzir do espanhol ao português, outra do francês ao português, outra do latim ao português... Que não implicará, então, traduzir do chinês ao português!
O que porém distingue exatamente a Tradução Stricto Sensu e a Tradução Literária? E de que necessita o tradutor para ser tradutor literário?

III

A Tradução Stricto Sensu simplesmente verte[2] a determinada língua o escrito em outra língua. Mas a Tradução Literária, se igualmente verte a determinada língua o escrito em outra língua, não o faz senão enquanto ambas as línguas são mera matéria para outra arte: a Poética.[3] Com efeito, como escrevi na Suma Gramatical da Língua Portuguesa ao tratar da pontuação, “há que repetir: à Poética, o poético. E repetimo-lo até porque, ainda que lido, qualquer conjunto de versos entre dois sinais de pontuação final tem entoação ditada não principalmente pela expressão de ideias ou de sentimentos, mas por sua mesma forma poética (no caso d’Os Lusíadas, epopeia vazada em versos decassílabos heroicos, ou seja, aqueles em que o acento tônico recai na sexta e na décima sílaba). O exemplo d’Os Lusíadas pode dizer-se frase, sim, mas apenas analogicamente, porque a frase propriamente dita, com seu sinal de pontuação final, é signo de algo dito com certa entoação linguística, ao passo que a frase camoniana é signo de algo dito, antes de tudo, insista-se, com certa entoação poética”. Que quero dizer aqui com tudo isso? Que, conquanto o tradutor literário verta a dada língua outra língua, não o faz senão para manter a forma literária que se valeu desta outra língua como de sua matéria. Naturalmente, tal fim – manter a forma literária vazada em outra língua – é perfeitamente “assimptótico”,[4] e o grau de seu êxito depende de múltiplas variáveis, como a distância entre as línguas entre as quais se fará o trânsito tradutório: com efeito, é muito mais fácil manter a forma literária quando se traduz do espanhol ao português do que quando se traduz do japonês ao português.       
IV

O tradutor literário supõe uma série de predisposições e de domínios: capacidade para traduzir e certa capacidade literária,[5] domínio da gramática e da literatura tanto da língua para a qual traduz como da(s) língua(s) das quais traduz... – e radical humildade, porque a Tradução Literária não é mais que um ofício serviçal: está a serviço da arte alheia.

V

Pois bem, é de tudo isso e de muito mais – os princípios e as técnicas da Tradução Literária – que tratarei no curso online de três aulas (de duas horas cada uma) O Que É a Tradução Literária:


que começará na próxima quinta-feira. Nele tentarei transmitir minha experiência de tradutor literário de várias línguas ao português que conta em sua bagagem mais de trezentos livros traduzidos, de Quevedo a Cícero, de Cervantes a Santo Tomás de Aquino.
Em outubro, ademais, ministrarei outro curso de características similares, mas sobre a Tradução [em geral] do Espanhol ao Português:


Os dois cursos ministrar-se-ão pela Escola de Tradutores:


Muito obrigado desde já aos que se inscreverem.    




[1] Estudo-o detidamente tanto na Suma Gramatical da Língua Portuguesa (É Realizações) como no primeiro opúsculo de Estudos Tomistas (Edições Santo Tomás), “Gramática, Arte Subalternada à Lógica”.
[2] Não há a menor distinção semântica entre traduzir, transladar e verter.
[3] A Poética constitui um gênero cujas espécies são justamente a Poesia, o Drama e a Prosa Artística.
[4]  Em geometria, assímptota é a reta que se aproxima indefinidamente de determinada curva sem que, todavia, haja possibilidade de as duas virem a coincidir.
[5] Não necessariamente o tradutor literário há de ser, ele mesmo, escritor literário. Por vezes, aliás, sê-lo dificulta o assumir a “personalidade” artística do escritor que se traduz. Basta que o tradutor seja ótimo leitor literário, saiba escrever em geral e tenha desenvolvido a capacidade de traduzir. Com efeito, a arte de traduzir é um hábito intelectual distinto do da arte literária. Mas nada impede que um escritor literário também tenha capacidade tradutória e, pois, capacidade para despir-se de sua “personalidade” artística a fim de revestir-se da de outro.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

"Um Condenado à Morte Escapou", de Robert Bresson (1956)


C. N.

 

Como se disse em Cinema: arte liberal, arte do belo (e um filme de Robert Bresson), o primeiro objeto da arte do belo é a proposição mental que é significada ou simbolizada por uma obra bela. Pois bem, a proposição simbolizada por esta estupenda película de Bresson é O vento sopra onde quer” (de João 3, 8: “O vento sopra onde quer, e ouves sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”). Veja-se o filme (aqui só pude postar seu trailer), e comprovar-se-ão tanto seu conseguimento quanto ao duplo objeto da arte como sua devida ordenação ao fim desta.  Uma última coisa: a música de Mozart (sua Missa em dó menorpontua perfeitamente a película.



O agnóstico Ingmar Bergman fala de "O Sétimo Selo" e de Deus


C. N.


Eis uma película que cumpre perfeitamente o duplo objeto da arte, mas falha quanto a seu fim. Para entender o que digo, leia-se Cinema: arte liberal, arte do belo (e um filme de Robert Bresson), e escute-se o que o mesmo Bergman (sem dúvida um cineasta maior) diz neste breve trecho de um documentário. Para o final deste mesmo documentário (o que não aparece aqui), dirá Bergman que se considera a si mesmo uma sorte de demônio. É de estarrecer.


sábado, 27 de agosto de 2016

Ferrer-Dalmau, talvez o maior pintor da atualidade


 C. N.

Realista, Augusto Ferrer-Dalmau Nieto (Barcelona, 1964) sobressai especialmente nas pinturas em que retrata os carlistas em combate, às quais imprime força épico-católica. Visite-se o site sobre sua obra, no endereço http://www.arteclasic.com/, e especialmente a sessão “Óleos”; e procure-se no Google “Ferrer-Dalmau – imagens”. O que se verá – e em que quantidade! – falará por si. 





Trailer de "Kagemusha, a Sombra de um Samurai" (1980), uma das obras-primas de Akira Kurosawa


C. N. 

Trailer de Kagemusha, a Sombra de um Samurai (1980), uma das obras-primas de Akira Kurosawa. Verdadeira e imponente tragédia guerreiro-psicológica, é muito superior quanto ao fim da arte a seu Ran, uma, digamos, “tragédia teológica” (baseada em Rei Lear, de Shakespeare). Mas, como em Ran, tudo aqui é perfeito tecnicamente: atores (especialmente o impressionante ator principal, Tatsuya Nakadai), cores (nunca se tinham visto cores assim no cinema), música (de Shin’ichirō Ikebe), etc.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A mais bela cena do filme “Ben-Hur”, de William Wyler.


C. N.


Por esta cena (vide João 4, 13-14: “Jesus respondeu: ‘Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna’”), por esta cena, digo, e pelo filme como um todo se entende por que disse Pio XII que o cinema “poderia ter sido” a maior das artes. Porque, com efeito, nesta mesma e imponente película se imiscuiu o mal. O roteirista do filme, o terrível Gore Vidal, alterou radicalmente duas coisas com respeito ao livro original: insinuou, ainda que imperceptivelmente para a maioria das pessoas, uma relação homossexual entre Ben-Hur e Messala; e eliminou o final do livro, ou seja, a conversão a Cristo do príncipe judeu Ben-Hur, limitando-se à cura milagrosa de suas parentes leprosas. Há outros problemas, ademais; mas baste aqui o dito.


Cena da expulsão dos mouros no filme “El Cid”, de Anthony Mann


C. N.

El Cid cavalga já morto contra os mouros. Note-se em especial o rei e outros cavaleiros ajoelhados ao final e rogando a Deus: “Receba este que foi o mais nobre dos cavaleiros”. Charlton Heston é o ator épico por excelência, e Sophia Loren encarna perfeitamente Ximena, a mulher de El Cid. Ainda de destacar, a música da película, do grande compositor húngaro Miklós Rózsa. – Em tempo: o filme baseia-se na peça de Pierre Cornaille Le Cid, e não na epopeia original anônima El cantar de mio Cid
     Em certa cena, tem-se já um um odor de ecumenismo (há outro problemas, que porém não tratarei aqui). Por outro lado, porém, é verdade que El Cid conseguiu o apoio de certos chefes mouriscos minoritários contra os majoritários, assim como o Rei São Luis tentou atrair a aliança dos mongóis contra os turcos (infelizmente morreu, e seu filho e sucessor no trono não deu prosseguimento ao plano). E veja-se na parte final, na qual o rei, ajoelhado, roga a Deus que receba El Cid, que também o chefe mouro aliado está ajoelhado, ou seja, em posição cristã. E eis o grito de guerra da batalha final, dado pelo rei: “Por Deus, por El Cid, pela Espanha!”

domingo, 21 de agosto de 2016

A obra-mestra de Gustav Mahler: “Symphonia n. 2 – Resurreição" (Claudio Abbado, Lucerne Festival Orchestra)


C. N.

Assim como não ouviríamos esta magnífica e complexa sinfonia sem que a tivesse feito o compositor, e sem que uma orquestra a executasse sob a regência de um maestro enquanto representante do compositor, assim tampouco o universo existiria sem que o tivesse criado a causa primeira – Deus –, e sem que os entes o executassem sob a regência das causas segundas enquanto representantes de Deus. E, com efeito, se do ângulo do espaço o universo é como um grandíssimo afresco, do ângulo do tempo é como uma longuíssima sinfonia. 

Em setembro e em outubro, dois cursos de Carlos Nougué sobre tradução



O que é a tradução literária


Tradução do espanhol ao português


Página inicial: 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

Divulgação do livro "Estudos Tomistas - Opúsculos"

Dois novos cursos (pagos) de Carlos Nougué


C. N.

Em outubro e em novembro terão início dois novos cursos on-line meus:
• em outubro, História da Música Erudita Ocidental (litúrgica e profana) (clique aí para todas as informações); 
• em novembro, História da Filosofia: Do Impulso Grego ao Abismo Moderno (clique aí para todas as informações).
O primeiro já o ministrei presencialmente. O segundo é o mesmo curso iniciado anos atrás e suspenso por motivos de doença. Vem agora em formato mais exequível para o atual momento; e com sua retomada como que pago uma dívida.
Anuncio-os desde já para que os interessados já se possam ir programando em todos os sentidos. Ademais, é o tempo de que terei necessidade para gravar tantas aulas (ao todo, 48).
Como quer que seja, parece-me que com estes dois novos cursos* dou grandes passos em direção à meta que estabeleci para minha velhice: não só percorrer mas ajudar a percorrer a longa estrada que conduz à Sabedoria.